” O quê sua experiência de quase-morte tem a ver com o curso?”, a pessoa me perguntou.

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Bem, talvez seja útil, em um tempo de tantas calamidades, compartilhar a profundidade do significado que o espírito humano tem para mim, desde que eu quase morri.

Então vamos contar o contexto: em Setembro de 2004 eu estava no sétimo mês da gestação do André. Eu tinha 33 anos, era saudável, sem histórico de doenças graves, sem vícios, e cumpria minha rotinas de preparação pré-natal. Preparando-me para um parto normal, eu e meu marido haviamos percorrido os melhores hospitais-maternidade de Curitiba, nos quais, a despeito dos esforços das equipes para mostrar-me as condições dos quartos e dos berçários , eu demonstrava uma inexplicável curiosidade pelas condições de atendimento da UTI neo-natal.

No feriado da independência (que viria a ser motivo de orgulho patriótico do André a respeito da data de seu nascimento), descemos a serra para desfrutá-lo na praia de Guaratuba, uma baía despretensiosa que acolhe os curitibanos no litoral do Paraná. As terríveis dores de cabeça duraram a madrugada toda, e pela manhã começaram as convulsões. Fui levada às pressas para o pronto-socorro local, cujas condições de atendimento chegavam a ser precárias para dar conta das escoriações infantis recorrentes na temporada, que dirá para fazer uma cesariana de emergência.

Estava presente um médico que acabara de chegar dos EUA, onde havia finalizado seu doutorado em Obstetrícia. Desnecessário dizer que ele era especialista em eclâmpsia? Que estava fazendo um plantão voluntário em Guaratuba, naquele feriado? E que impediu que eu tomasse uma medicação incorreta, orientando a equipe para ir até a Santa Casa buscar a medicação apropriada para minimizar as convulsões até chegarmos em Curitiba? Então não preciso contar que, após ele ter feito esta intervenção vital, tivemos oportunidade de agradecê-lo, e nunca mais o encontramos novamente.

Foram duas horas lutando contra as convulsões, enquanto a ambulância municipal percorria as curvas da serra para que eu pudesse ser atendida em Curitiba. Em dados momentos, eu pedia, desesperada, que o carro parasse, para que eu pudesse respirar. Ignorante sobre o que estava acontecendo comigo, eu tentava aplicar as técnicas que respiração aprendidas no curso de yoga para gestantes, único recurso que eu tinha disponível para controlar a suspeita de morte iminente que sentia naquele momento. Sem saber que se tratava de uma eclâmpsia, eu não podia sequer imaginar o que se passava na cabeça do meu corajoso marido que, sendo médico e conhecedor de todas as implicações da doença*, impedia o motorista de atender às minhas súplicas, enquanto lutava internamente com a terrível decisão que ele sabia que provavelmente teria que tomar: escolher entre a vida da mãe ou do bebê.

Consciente dos solavancos e paradas em semáforos, eu os ouvia dizendo “estamos chegando, estamos quase lá”. Meu marido sabia que o ideal, nestes casos de emergência, é que eu fosse atendida pela médica que fizera todo o meu acompanhamento, em um hospital onde ela estivesse chefiando o plantão, para que todas as providências pudessem ser tomadas com a rapidez necessária. Ficaram para trás as recepções fofinhas, as saletas decoradas, as televisões dos apartamentos-luxo. No dia da Pátria, eu seria atendida no Hospital do Trabalhador. Providencialmente, uma das melhores UTI´s neo-natais do Brasil.

Entre uma respiração e outra eu pude sentir que se aproximava uma poderosa calma. Estava de olhos abertos quanto senti o solavanco da maca contra a porta da entrada de emergência, e a voz conhecida da médica-assistente dizendo: “você chegou”. E este foi o momento em que dei minha última respiração. É um pouco difícil de explicar. Antes de qualquer anestesia, antes de deixar de sentir o calor do dia. Foi um ato de entrega consciente. Eu coloquei meu corpo, meu filho, meu destino, à disposição daquela poderosa calma, fechei os olhos e simplesmente expirei.

O que aconteceu comigo, em seguida, é algo que não tenho a menor intenção de explicar, justificar, provar ou palestrar sobre como se fosse a única verdade. Não pretendo confrontar ciência ou fé, e espero não ofender ninguém com minha história. Foi a experiência que eu vivi, e pelas características óbvias de algo que se passa em outra dimensão, não tem como ser traduzida pelas palavras, comparações e metáforas às quais estamos acostumados. Apesar da limitação de contar aquilo que não pode ser contado, costumo traduzi-la como uma “experiência de totalidade”. Como uma luz, liberta da lâmpada.

Sem as barreiras do corpo e da mente, a energia dissipa-se e integra-se com sua fonte geradora. É possível experimentar a consciência de tudo. Tudo está, verdadeiramente, conectado. Assim como você chama o pé de pé, a mão de mão, o coração de coração, mas todos fazem parte do mesmo corpo. Isto é a experiência do espírito: total conexão, integração.

Não existe distinção nem juízo de valor sobre seres, tudo emana uma energia contínua, perfeitamente equilibrada, sábia, e inigualavelmente amorosa. Não há passado nem futuro, tudo está, a cada milisegundo. Não há pequeno ou grande, certo ou errado, não é quente nem frio, e as cores não são comparáveis às que enxergamos com os olhos. A consciência não se dá em uma parte do corpo, não existe mente, não existe corpo, não existe você, como singularidade. Existe você, como parte de TUDO o que É, o conhecimento absoluto de que TUDO é e será perfeito. TUDO O QUE É inclui o planeta e outras esferas cósmicas, mas elas não são separadas, são apenas níveis de densidade à sua escolha.

Falando em escolha, foi exatamente o que me fez voltar: eu estava neste estado de totalidade, quando foi – por falta de melhor descrição – feita uma pergunta: “deseja ficar ou deseja voltar?”. É interessante contar que não foi uma pergunta feita externamente, por alguém – não, não foi a Woopy Goldberg nem o Morgan Freeman. E não, eu não passei por nenhum túnel, nenhum anjo me fez esta pergunta . É uma escolha posta. E o processo de decisão não passa pela habitual lista de prós e contras (por que ficar, por que voltar…etc). É uma decisão instantânea.

Confesso que quando abri os olhos na UTI e percebi que estava de volta a esta matéria densa, limitada e separada  do todo, tive um grande choque, e quase como um arrependimento. Levei anos para compreender porque isso havia acontecido comigo. Anos de inquietação solitária, revisitando esta memória e me perguntando sobre as razões pelas quais, sabendo como é estar na totalidade, completamente livre do medo, do ódio, das limitações do ego, o espírito pode escolher separar-se do todo e viver num corpo humano. E a resposta é: pura experimentação. O espírito almeja a experiência de todo o amor que ele sabe ser possível. Ele deseja a dor e a delícia da experimentação do corpo. Ele pode ver a si mesmo, e reconhecer a si mesmo num abraço, num olhar, na experiência de ser pai, de ser mãe, de ser terra, de ser fogo, de ser animal, de ser rio, de ser flor, de ser bom , de ser mau, de ser luz, de ser sombra. Ele sabe-se capaz de reunir suas partes de volta ao todo. Ele simplesmente se diverte ao separar-se e reencontrar-se consigo mesmo, uma vez que não está limitado pelo tempo. Uma vez de volta à matéria, o espírito experimenta, novamente, o limite. Ele tenta, naturalmente, retornar ao estado vibratório de totalidade. Ao longo da história do universo, expansão e retração são o que reconhecemos como efeitos desta experimentação. No nível humano, a única maneira de voltar àquele estado de conexão e amorosidade é, ao livrar-nos deste corpo, nossa energia precisa estar em alto estado vibratório. Ou seja, de fato, as dificuldades, dores e desafios, nós os criamos para poder experimentar estados densos e em seguida superá-los!

Este é o sentido de dizer que, enquanto estivermos aqui, devemos lembrar-nos de que estamos conectados, de que viemos da mesma Fonte e a ela retornaremos!

Para muito muito além das fronteiras da religião, compreendi que a vida humana é cara ao Espírito, ela é sagrada para ele como um filho o é para um pai, uma mãe, como o André (que sobreviveu lindamente! ) é para mim e meu marido: uma parte nossa que escolhemos ver crescer, desenvolver-se, aprender, realizar feitos, passar por sofrimentos e alegrias, viver a Vida! Por isso é tão importante continuar escolhendo o que fazer com este tempo em que estaremos separados, pois a qualidade de nossas emoções, de nossa capacidade de reconhecermos uns aos outros, determina em que frequência vibratória podemos voltar a nos conectar com a Força Criadora!

Compreendi que, seja o que for pelo que estejamos passando, estar num corpo vivendo uma experiência humana é uma escolha sagrada da alma, uma magnífica oportunidade para ser honrada, aproveitada, compartilhada como esta grande aventura que eu escolhi compartilhar com vocês!

* Eclâmpsia é uma condição rara, mas grave, que provoca convulsões durante a gravidez. É a principal causa de mortalidade materna no Brasil – ao menos duas mulheres morrem a cada dia por causa do problema. A eclâmpsia afeta cerca de uma em cada 2 mil a 3 mil gestações, e pode afetar qualquer gestante, mesmo quem não tem um histórico de convulsões. A pré-eclâmpsia e eclâmpsia afetam a placenta, órgão que fornece oxigênio, sangue e nutrientes para o feto. Quando a pressão arterial elevada reduz o fluxo de sangue, a placenta pode ser incapaz de funcionar corretamente. Isso pode levar o bebê a nascer com baixo peso ou outros problemas de saúde. Problemas com a placenta muitas vezes podem antecipar parto. Em casos raros, estas condições pode levar a um bebê natimorto.

 

 

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