RE-APRENDER A COMUNICAR

Entre todos os aprendizados que vou compartilhar em seguida, talvez o mais contundente tem sido a constatação de que, como Guerreira pelo Espírito Humano, eu preciso re-aprender a me comunicar.

A comunicação, como todos os processos-chave dos relacionamentos humanos em tempos de transição, precisa ser revista. Se há um canal contaminado por nossos impulsos menos nobres de controlar e manipular uns aos outros, é a Comunicação.

Eu nunca me considerei uma pessoa com dificuldade em comunicar-me. Costumo brincar que, como a maioria de nós, eu entendo perfeitamente tudo o que eu digo. Mas até esta habilidade de usar a ironia para me expressar foi lapidada pelo fio da espada dos princípios de um Guerreiro pelo Espírito Humano, como revelarei ao fim deste artigo.

PEDIR / COMPARTILHAR

Dar e Receber são fluxos decorrentes de um primeiro movimento, no caso do financiamento coletivo, o Pedir.

Eu não teria como prever que conseguiria arrecadar 104% da quantia necessária na primeira fase. E não-saber é uma das constatações mais apavorantes para o ser humano. Muitas pessoas jamais experimentam 100% de sucesso em suas iniciativas porque se apavoram diante dos 50% de chance de serem fracassadas.

Além deste medo subjacente diante do desconhecido, culturalmente, o Pedir é frequentemente traduzido como uma revelação de fraqueza, de impotência diante de uma situação. O “pedinte” é um ser fragilizado, vulnerável ao julgamento e benevolência alheios.  Além disso, o meu Pedir impactava as pessoas ao meu redor, minha família, meus amigos, e pessoas que pensavam saber algo sobre mim a partir do meu Pedir. Mais do que isto, o meu Pedir espelhava algo nelas,  sobre tudo a que elas não tiveram acesso, não porque o que elas precisassem não estivesse disponível mas, talvez, porque elas não conseguiram Pedir.

Ter clareza sobre O Quê pedir, Como pedir, era a urgência de amigos especialistas que se dispuseram a me auxiliar no processo de comunicação, e tudo o que eu conseguia fazer era sentir Porquê pedir. Eu também fui orientada a explicitar “o que as pessoas vão ganhar com isso”, foi o famoso dilema ideológico de constatar que algumas estratégias de crowdfunding ainda reproduzem uma lógica de “sedução do cliente”, e tratam as pessoas como “público-alvo” ou “fatia de mercado”.

O que eu não conseguia – e ainda não consigo –  traduzir era que a minha campanha de financiamento coletivo nunca se tratou de pedir dinheiro.  Minha maior batalha, nesta fase, foi ser fiel à intenção de COMPARTILHAR um Propósito, mais do que pedir.

A intenção primordial era dar visibilidade, compartilhar a essência do curso Guerreiros pelo Espírito Humano, compartilhar meu desejo de aprimorar habilidades de sustentar a convicção de que as pessoas são inerentemente movidas pelo desejo de se ajudarem mutuamente, e que esta expressão individual tem poder exponencial de realização quando compartilhada coletivamente. E observar quem tem ressonância por esta proposta. Aguardar os movimentos espontâneos das pessoas em se aproximarem o suficiente dos posts de facebook, dos e-mails, das rodas de conversa, a ponto de se envolverem, oferecendo ou usufruindo do sistema de recompensas.

A própria composição do sistema de recompensas foi muito rica de insights, também: o que faz com que uma pessoa se aproxime tanto da essência do Guerreiro pelo Espírito Humano a ponto  dela mesma se apresentar , oferecendo seus dons, disposta a abrir mão do retorno financeiro e abrir o coração para o retorno energético de ser útil a desconhecidos, pelo prazer de estar envolvido em uma causa maior que ela? O que faz com que outra pessoa  desconhecida, por vezes distante milhares de quilômetros, aceite esta oferta? A partir dos depoimentos de quem participou, eu pude perceber que estes encontros foram legítimos e profundos, gerando muito mais do que o esperado para ambas as partes. Forma-se um padrão virtuoso de troca, no qual não se tem mais clareza de quem está dando e quem está recebendo, e o Espírito Humano se revela em toda a sua simplicidade e alcance.

PREÇO / VALOR

Outro aprendizado desta parte do processo foi sobre o valor intrínseco que as pessoas dão aos seus próprios dons. Aprender a reconhecer, nomear e quantificar sua  oferta, transcendendo Preço x Valor foi um exercício delicado e poderoso para muitos dos apoiadores.

Alguns dos dons ofertados nunca foram solicitados, e isto também gerou um aprendizado : após colocar inteligência e energia e coração para descrever e quantificar o valor do meu dom, como me sinto quando o que eu ofereço não é demandado? O quanto estou disposto ou resiliente para permanecer oferecendo ao mundo algo que eu vejo como útil e bom, mesmo quando este valor não é percebido? E se eu não ofereço este dom, ele deixa de ser  útil, ou mesmo, deixa de existir? Eu aprendi que não, em absoluto.

Frequentemente o termo “coragem” é evocado em sua origem etimológica, “agir com o coração” . Ofertas de coração são úteis em si, tendo sido ou não usufruídas. Ter coragem de oferecer é tão apreciado quanto  ter coragem de pedir. Oferecer com o coração é um ato desprovido da necessidade de “retorno sobre o investimento”, tanto quanto pedir com o coração é um ato desprovido de subserviência .  Quando executados com integridade,  ambos dão movimento ao fluxo da inteligência coletiva,  ambos  tem  em comum a ausência de apego ao retorno, e assim se nutrem de sua própria natureza .

RESULTADO / PROCESSO

À medida que eu divulgava no facebook o quanto a meta já havia sido atingida ou não, foi muito interessante perceber como nossa lógica de engajamento ainda está determinada por crenças coletivas sobre sucesso e fracasso, ou com comportamentos grupais arraigados, como sentir-se campeão pela vitória do time. Esta lógica é bastante temerária para um financiamento coletivo: se todos ficarem “esperando dar certo” pra contribuir, ninguém contribui, e o prazo de captação expira. Certas estratégias baseiam-se exatamente neste “medo de perder” e utilizam o mecanismo de “tudo ou nada”, no qual o proponente do projeto perde tudo o que ganhar se não atingir a meta.

Algumas pessoas só passaram a contribuir financeiramente após constatarem que eu já havia atingido um patamar de doações relativamente próximo, e elas se sentiram mais propensas a contribuir para uma causa com probabilidades de vencer. Outras, perguntaram-me o que eu faria “se o projeto fracassar”. E, novamente, eu não conseguia comunicar com clareza  o que estou entendendo por sucesso e fracasso. Isso tem a ver como minha visão sobre Resultado x Processo

A inversão da interpretação do que chamamos Processo e do que chamamos Resultado é algo que captura minha atenção já há alguns anos, e com a dinâmica do financiamento coletivo não foi diferente.

Na minha percepção, eu lancei na rede um convite para adentrar a um determinado Campo energético, uma determinada frequência baseada numa determinada premissa , por assim dizer,  a convicção compartilhada pela idealizadora do curso, Margaret Wheatley, de que não há desafio que um indivíduo não consiga superar sozinho que não possa ser conseguido coletivamente.  Uma das descrições de um Guerreiro pelo Espírito Humano é o comprometimento com  “agir de forma a tornar possível para as pessoas a experimentação do seu potencial humano”. Portanto, o fato de alguém se dispor a fazer parte da campanha, seja doando ou recebendo pela plataforma de crowdfunding, seja auxiliando na concepção, execução ou divulgação da campanha, ou mesmo explicitando seu apoio já é resultado. O que define o sucesso da campanha é o movimento que cada um faz, inspirado por seu Espírito Humano, que o conecta a outros indivíduos inspirados pela mesma Fonte. Que eu consiga fazer a viagem e o curso é o processo que viabiliza este resultado, e não o contrário.

IRONIA / INTEGRIDADE

Além de ser orientada pelos estudos do TAO, meu caminho espiritual, eu tenho a sorte de ser rodeada por uma qualidade de amigos que são fiéis o suficiente para me alertar sobre meus comportamentos mais sombrios. Meus pontos cegos são frequentemente acolhidos por essas pessoas que, mais generosas que eu, me presenteiam nomeando atitudes e vícios que tenho me esforçado para transmutar.

Acredito que este é o presente mais generoso que podemos dar uns aos outros: a dádiva do erro. Compartilhar os erros, oferecer luz sobre o que precisa ser revisto, é uma prática saudável e necessária.

Foi assim que o mais precioso aprendizado até este momento adveio do erro que mais cometo: usar a palavra como arma.

Ao longo dos anos, eu me orgulhei de dizer que muitas vezes usei a ironia como recurso nas minhas batalhas verbais e escritas contra aquilo ou aqueles a quem julguei. Eu costumava pensar que transformar minha raiva em ironia era suficiente e eficaz para calar meus oponentes, usando o humor como efeito dramático para minimizar o golpe, digamos assim.

Há alguns dias, alguém me escreveu um email copiando várias pessoas, pedindo a opinião de todos sobre um determinado assunto. Pela natureza do assunto e pelas pessoas copiadas, eu podia antever a batalha de egos que surgiria daquele estímulo. Por um instante, minha mente deu início ao familiar processo de escrever pensando em causar determinado efeito naqueles que leriam. Mas eu estava comprometida com a missão do Guerreiro pelo Espírito Humano, de nunca mais usar a violência ou agressão (física, verbal, escrita ou energética) para atingir meus propósitos.

Então eu suspendi o desejo do meu próprio ego,  de causar uma impressão, de parecer brilhante e implacável, de ensinar uma suposta verdade que só  eu enxergava. Respirei e escrevi a resposta mais pura, a que vinha do coração, a resposta que atendia unicamente ao Propósito da pergunta que foi feita. Escrevi com se nunca ninguém fosse ler aquelas linhas. Em suma, escrevi com desapego do resultado da minha ação. Devo dizer que foi o texto mais claro, conciso e irrefutável que já escrevi na vida. Ao lê-lo, percebi que aquela sabedoria não me pertencia. Embora eu ainda estivesse atenta à certeza latente de que o texto estava tão verdadeiro que não sobraria espaço para nenhuma resposta diferente da minha, o lugar espiritual de onde veio esta ação era correto. Foi a primeira vez que usei a espada de guerreiro afiada, aquela que corta e cauteriza ao mesmo tempo.

A ironia foi substituída pela integridade, e foi infinitamente mais eficaz.

Como diz minha preciosa amiga Edite Querer, “o que eu mais quero ensinar é o que eu mais preciso aprender”. Não sei se esta frase é de autoria dela, mas poderia ser, porque Edite é muito sábia. Todos nós temos dons que às vezes usamos como armas, que cortam mas não curam. Seja qual for o seu dom, eu te convido a afiar a sua espada, eliminando uma única impureza: o desejo de ferir.

*****

Hoje, com a segunda fase da campanha aberta, são 9 mil reais para captar, considerando que temos diante dos nossos olhos um impeachment presidencial e uma percepção coletiva de crise econômica, especulação e caos administrativo. Muitos que, como eu, trabalham por uma sociedade mais colaborativa e solidária estão envoltos em um turbilhão de sentimentos conflitantes permeados pelos ecos dos gritos avindos de uma nação dividida e de destino incerto.

Ponderando sobre este cenário, eu me sentiria tentada a, novamente, recorrer à ironia para me comunicar; mas escolho exercitar a fé no Espírito Humano, confiar que as contribuições para que eu possa dar prosseguimento aos procedimentos de pagamento do curso e das viagens serão feitas,  e ficar atenta aos mesmos desafios : compartilhar, apreciar o valor de tudo o que surge, sem apego ao resultado, e com integridade.

9 mil reais. Mas eu sei que você está comigo, e não há nada que não consigamos realizar, juntos!

 

 

 

 

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