A frase em inglês é “First, be friendly to yourself”.

Esta prática é importante porque, em nosso dia-a-dia, surgem inúmeras situações nas quais alimentamos frustração e decepção relacionadas ao cuidado e dedicação que dispensamos às outras pessoas, a um projeto, à uma empresa, à uma causa. Podemos passar anos afirmando que fazemos o que fazemos porque estamos primeiro pensando nos outros. Subitamente, nos vemos desprovidos de energia para continuar “dando murro em ponta de faca”. Passamos algum tempo julgando aqueles que não compreenderam nossa oferta tão generosa, e por vezes pensamos em desistir. Em seguida nos sentimos culpados por não perseverar, nos impomos um outro nível mais rigoroso de disciplina ou julgamento, queremos ser perfeitos para esses “outros”, tão importantes.  Então, criamos um novo patamar de superação, costumamos dizer que “tiramos energia de onde não há” para seguir agindo, e entramos em novo ciclo de dedicação/frustração. Mas esta atitude não cuida de nós, não oferece estabilidade. Ficamos sujeitos às oscilações externas, dependentes de aprovação e reconhecimento.

Um Guerreiro deve, antes de mais nada, honrar a si mesmo.
Equanimity2

Este convite representa uma quebra de paradigma quando se trata de atingir outro nível em nosso serviço ao mundo, porque muitos de nós, com tendências humanitárias, cultivamos, conscientemente ou não, um tipo de altruismo superficial que coloca “o outro” – filho, cônjuge, família, ou simplesmente “os outros” – como prioridade.

Nesta atitude estão implícitos alguns riscos que importa clarificar, no caminho do Guerreiro:

  • Condescendência: ao colocar ” o outro” sob meus cuidados, presumo que sou eu quem sei do que ele precisa, sou eu o cuidador virtuoso que vai se sacrificar para que ” o outro” possa ser salvo, consertado ou preservado.
  • Culpa: ao invés de nos responsabilizarmos pela saúde do relacionamento, estabelecemos uma lógica de mão única, na qual o fluxo de dar e receber não existe ou, no máximo, começa sempre a partir de quem dá. A longo prazo, a expectativa de retorno ou reconhecimento por aquela oferta primária ganha contornos de rejeição e ressentimento, e então nos enfraquecemos na espera de que esta energia seja reposta.
  • Onipotência: presumir que podemos assumir nosso fardo e o dos outros torna-se uma fonte inesgotável de concessões, sacrifícios pessoais em detrimento de nossas próprias necessidades de equilíbrio e bem-estar. Frequentemente, a saúde física é o recurso biológico que primeiro nos avisa que esta suposta onipotência cobra seu preço.

Que cada um cuide de identificar e atender suas próprias necessidades soa como um comportamento auto-centrado, e em tempos de demonização do ego, nossa tendência é classificar tal comportamento como egoísta. No caminho do Guerreiro, significa simplesmente cuidar de si, nutrir-se em corpo, mente e espírito para aí sim melhor atender o outro, sem sobrecarregá-lo com nossa condescendência, sem imprimir-lhe culpa por nossa dedicação, sem fragilizá-lo perante nossa presença maciça.

Note-se que “primeiro seja gentil consigo”, e não “seja gentil apenas consigo”.

Saber identificar e atender a si mesmo é uma expressão de autonomia e consciência. Do cuidado consigo emerge uma visão mais clara e precisa a respeito de onde ajudar, como ajudar, quando ajudar, quem ajudar e principalmente, porquê ajudar.

Na minha perspectiva pessoal,  trata-se do bom e velho “anfitriar a si mesmo” que compartilho em meu trabalho como coach, e no coletivo em que vivo no Instituto Nhandecy procuramos praticar “cada um oferece o que tem e pede o que precisa”. O ideal desta prática culmina nos momentos em que não há diferença entre quem ajudou e quem foi ajudado. No círculo virtuoso em que primeiro cuido de mim, o outro desaparece. Cuido do  meu filho porque a mãe em mim reconhece e autoriza a manifestar-se a essência deste papel. Cuido do meu marido porque a esposa em mim não existe na ausência dele. Cuido de meus pais porque retorno para eles o cuidado que recebi. Cuido da minha comunidade porque sem ela não há possibilidade da inteligência coletiva se manifestar em minhas atividades. Cuido do planeta porque é a fonte de minha própria vida.

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