Saboreie a incerteza.

Não estamos acostumados a celebrar o não-saber.

Somos, frequentemente, alertados para não transparecer a dúvida, e se fizermos perguntas, que sejam inteligentes – a velha contradição acadêmica entre a humildade que antecede o aprendizado e a necessidade de parecer brilhante, mesmo quando não sabemos de nada.

Enquanto nos esforçamos para saber, resistimos ao fluxo natural das interações entre os sistemas que, desde tempos imemoriais, são regidas por ciclos de criação e destruição; nossas certezas não são mais do que barragens mal acabadas tentando conter o leito caudaloso da vida, e esta força de resistência que criamos na tentativa de controlar as águas apenas gera mais dor, frustração e esgotamento ao nosso redor.

No cotidiano, almejamos prever o futuro. Estamos imersos em planejamentos estratégicos, projeções estatísticas, análises de risco, gestão disso e daquilo. Além de não cultivarmos o não-saber, ainda temos a pretensão de reduzir o saber possível, etiquetá-lo, liquidá-lo como uma cesta básica de informações sucateadas que possam ser vendidas por um preço barato em larga escala. As prateleiras de best-sellers estão cheias de “5 maneiras de…”, “7 dicas para…”, “sucesso em 10 lições”.

Já viram como não aguentamos não-saber? Queremos um autor genial que nos ajude a salvar o casamento,  penetrar a mente de Steve Jobs,  até compreender a história do tempo (desde que seja breve), e lotamos as salas de cinema para ter uma degustação coletiva do fim do mundo.

Acontece que, naquele momento em que estamos tentando antecipar o resultado de uma conversa, o comportamento desta ou daquela pessoa, se por apenas um segundo, nos dermos conta da complexidade das relações, nossa resposta mais honesta seria de que a realidade é, de fato, imprevisível. Qualquer um que esteja por aí preconizando as próximas 24 horas, o próximo minuto, está numa jornada de especulação ( seguido por muita gente lamentavelmente disposta a pagar por isso) e auto-engano. No mínimo, sobre a hora da própria finitude.

Andamos pelo mundo como se fossemos imortais, e este é o não-saber supremo. Sabemos que vamos morrer, só não sabemos quando nem como, e isto é o que nos permite continuar vivendo com um certo grau de equilíbrio emocional. Pode parecer mórbido, mas vejam como a natureza é sábia: para as grandes questões que regem a existência humana, a ignorância pode ser uma dádiva. Não precisamos controlar as veias para que o sangue corra. Não precisamos definir Deus para sentir a divindade. Não precisamos explicar o sol para sentir seu calor. E, felizmente, o eixo da Terra, seja qual for sua inclinação, não espera por nossas ponderações.

O convite, aqui, é para uma refeição completa e nutritiva, servida numa mesa simples, sem ostentação nem onipotência. Saboreie a incerteza. Ponha todas as suas dúvidas no cardápio, aprecie cada ponto de inflexão, cada espaço em branco. Desprenda-se, por alguns momentos, da necessidade de tomar a melhor decisão, de dar a última palavra, de pensar (ou dizer) “eu sabia”!

Um Guerreiro pelo Espírito Humano não se limita pelo intelecto ou pela necessidade de apreciação de seu ego; ele reconhece em si e nos outros a sabedoria universal, não necessita de confirmações. Portanto, permita-se a liberdade de não precisar trazer a explicação mais contundente, ninguém está esperando que você resolva o problema, a equação não aguarda por sua solução definitiva. Seja o seu não-saber a variável mais bem vinda, aquele imprevisível  espaço aberto que antecede as grandes aventuras da vida. O espaço do não-saber contém em si criatividade,  inovação,  curiosidade, a abertura da mente. Abrace suas perguntas com carinho, tire da gaveta aquela dúvida secreta, que você não ousa expressar com medo da humilhação pelo não-saber. Ria diante das antigas certezas.

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Reconheça que o mundo nunca mais será como foi há um minuto. Quem quer saber o futuro pelas lentes de outra pessoa? Este caminho instransferível, que você percorre a cada momento, é fruto única e exclusivamente do seu não-saber. Cada curva, cada colina é ultrapassada pelo desejo de ver o que há além. Caminhamos enquanto não sabemos, as falsas certezas nos trazem arrogância e estagnação.

Caso você encontre uma pergunta incômoda, muito dolorida, muito amedrontadora, encare-a  como um convidado que você vinha evitando há muito tempo. Receba-a com leveza e bom humor, convide-a para uma taça de vinho do porto, sirva-lhe um doce, desses de massa fina, que derretem na boca. Aprecie este momento de espaço vazio, não tente preenchê-lo imediatamente com suas verdades. O que seu corpo está dizendo sobre você mesmo, diante daquela pergunta? Que emoções estão vivas?

Não tente explicar, apenas esteja com sua pergunta. Naquele momento de não-saber, todas as respostas são possíveis. Aproveite!

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