Don´t fix. Don´t avoid. Just be present.

Muito difícil, esta proposta. Desde que nos perguntaram “o que você quer ser quando crescer?” cultivamos a idéia de que estamos inacabados. Se ainda não sabemos o que fazer, significa que não somos. Angustiante paradoxo, uma vez que só seremos quando crescermos. Mas quando acabamos de crescer para, finalmente, ser?

Tudo não passaria de uma redundante aula de filosofia se Sócrates mesmo não tivesse se matado (de tédio?). Em nível coletivo, o que resulta desta retórica é a viciante tendência de “consertarmos” uns aos outros, tentando preencher o espaço que pensamos necessário “para que ele/ela cresça!”.

Existe uma ditadura da empatia (aliás, outro dia conversemos sobre isso de se colocar no lugar do outro), um feedbackismo  crônico quando nos deparamos com alguém que, a nossos olhos, não sabe o que fazer. Nosso olhar (bem intencionado, sempre), avalia que o outro está em sofrimento, está errado, está perdido, precisa ser consertado. Queremos oferecer, de imediato, uma saída, um argumento, uma proposta, um alento. Vamos pensar em um novo projeto, uma nova causa, um novo relacionamento, quem sabe outra cidade,  “você vai sair dessa”. Não somos capazes de sustentar o não-saber, porque nossa crença de que não-saber implica em não-fazer nos ameaça com a fantasia de que se não fazemos, não somos. “Eu quero fazer diferença, eu quero ser alguém.”

E que tal se a gente só invertesse a ordem dos tratores pra ver se o viaduto não cai na primeira maré? “Eu já sou alguém, e isso faz diferença”.

“Cresça e apareça”, diria minha mãe. Ou meu pai. Ou meus professores. Enfim, um adulto. Alguém que já cresceu. Que já é. Eu, se não sei o que fazer, ainda não apareci. Por isso amargamos o peso do desemprego com tamanha depressão. Não é só o salário que não aparece na conta. O indivíduo mesmo, desaparece. Não está no mercado, não está na vida.

Constantemente ameaçados sob a perspectiva da invisibilidade, evitamos ao máximo entrar em contato com paradoxos como este. Fugimos de nossas incoerências, dos conflitos, de qualquer dissonância que nos lembre o quanto ainda falta crescer. E, infelizmente, nos paralisamos diante das menores tarefas do dia-a-dia. E das maiores também, aquelas que exigem crescimento espiritual, expansão da consciência, desapego do ego. Seja qual for a fórmula transcendental que te seduz neste momento, a verdade é que estamos cada vez mais incapazes de apenas estar presente e nos responsabilizar, seja como testemunhas seja como protagonistas, pelo triste desenrolar de nossa evolução enquanto sociedade.

Que atire a primeira almôndega quem nunca esteve num almoço de domingo resolvendo os problemas do mundo entre uma garfada e outra. Traçando novas diretrizes e bases para a Educação, o Transporte e a Saúde enquanto decidia se comia a sobremesa ou ficava só no cafezinho. Deliberando sobre políticas públicas com seu cunhado no intervalo do campeonato brasileiro, ou comparando as ações – ou falta delas – da ONU com as memórias do vô, sobrevivente da segunda guerra, ditadura e planos Cruzado 1 e 2.

E que sirva bombom e licor quem nunca fechou a janela ou desviou os olhos de um pedinte no semáforo.

Não conseguimos enxergar. Não queremos enxergar. Se enxergarmos, temos que crescer. E se crescermos, temos que ser. Temos que estar presentes.

“Darlene, você está me dizendo para não fazer nada? Pra ser conivente com o sofrimento do mundo?” Não, criatura; primeiro que eu não estou TE dizendo nada, blogs são diálogos internos disponibilizados com quem quiser ler, por sua conta e risco. Segundo que o sofrimento do mundo é coisa de Drummond, vamos nos ater ao aqui e agora, eu, hoje, nas minhas relações, e o convite é pra ser mais equilibrado, não tão ansioso, tão aflito, porque ansiedade e aflição não contribuem.

Durante o curso, a metáfora para a prática desta qualidade de presença que não tenta evitar nem consertar foi oferecida por meio de uma dinâmica de pintar um circulo numa folha em branco. Se quiser, procure por circulo zen enzo na internet, ou clique aqui: https://www.youtube.com/watch?v=WBrZXmhxQ8Y

Você, um pincel imenso e pesado cujas cerdas vão para qualquer lado, produzindo mais um porco espinho do que um prosaico ponto preto, uma tinta com vida própria que se esparrama toda à menor respiração, 5 segundos, nem isso. Faça o que tem que fazer, observe, feche a folha, limpe o espaço e deixe a folha em branco para o próximo participante. Não há o que criticar, não há o que consertar, e não se pode evitar o que está à sua frente. O máximo que você pode fazer é abrir espaço para o próximo círculo, seja desenhado por você ou por outra pessoa. Bem esclarecedor, devo dizer.

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Então, moçada, hoje, o convite do Guerreiro é para estar presente. Não tente consertar ou evitar a situação. Eu sei que você sente que quer fazer algo, que precisa fazer algo, pois o mundo é tão injusto. Mas você não precisa fazer, para ser, lembre-se. Ser, íntegro, consciente, já é agir. A ação correta decorre do ser correto, e não o contrário. Com firmeza de espírito, com retidão de caráter, olhe de frente, observe diretamente o que está à sua frente. Conviva com o que enxerga. Permita que o que se apresenta se revele em toda a sua convulsão, inacabada, imperfeita, contraditória, conflituosa, o que for.  Daí me perguntaram: “Mas é muito difícil, esta proposta. Se eu vejo que uma situação ou pessoa está errada, eu preciso corrigi-la, ela precisa aprender, precisa crescer.”

Olha, vou dizer uma coisa, por experiência própria de uma viciada em “ajudar os outros”:  a vida é a melhor doula que existe. Mesmo quando alguém procura se reinventar profissionalmente e pede meu trabalho como coach, o máximo que posso fazer é observar a gestação, e sugerir técnicas para suportar as dores do parto, aqui e ali dizer “respira, respira!”. Tentar “ajudar alguém a crescer” é como submeter outra alma ao fórceps do seu ego.

Não se esqueça, eu também estou em treinamento junto contigo. Vamos tentar uma abordagem que funciona muito bem para vícios: “só por hoje, eu não vou evitar nem consertar, vou apenas estar presente”. Experimente, de vez em quando, apenas oferecer sua presença.  Testemunhe, dê espaço. A semente se contorce um pouco, mas libera seus ramos e folhas, encontra seu ponto de apoio e atinge seu lugar ao sol no tempo propício. E, neste caso, agora sim, estou falando de você, também. 😉

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