Abandon any hope of fruition.

A metáfora do beija-flor que faz sua parte apagando o incêndio de gota em gota é comumente apreciada, mas não vou enganar vocês; quando fomos provocados a examinar nossa prática, não houve aceitação gratuita, cada aluno no curso se debateu contra essa proposta.

Imaginem, todos ali têm um pé no ativismo social e ecológico, todos lutam contra um sistema, são educadores, executivos da sustentabilidade, consultores em liderança, agentes de transformação, trabalhadores da luz…etc, e o nome do curso, ainda por cima,  é “Guerreiros pelo Espírito Humano”. É claro que fazemos o que fazemos com esperança de mudar as coisas, com a visão de uma sociedade melhor, querendo fazer uma diferença consistente. É claro que todos ali  se levantam, dia-a-dia, buscando algo que faça sentido, que transforme a realidade, e atualmente muito se fala em deixar um legado, algo que permaneça,  após sua morte. Pessoalmente, eu não faço a menor questão de deixar um legado. Primeiro que não me acho assim tão relevante, e segundo que faço o que faço com todo comprometimento possível, aqui e agora; depois que eu morrer, deixem –me em paz.

Mas vamos supor que faça sentido trabalhar com tanto afinco, esperando que sua ação no mundo cause impacto.  A provocação, a partir deste slogan é: você seria capaz de continuar fazendo o que precisa ser feito, mesmo sem saber o que vai acontecer? Mais do que isso, fomos convidados a pensar se continuaríamos a fazer o que fazemos sabendo que estamos em rota de destruição. Você seria capaz de continuar fazendo o que precisa ser feito, mesmo sabendo que não vai causar impacto algum, a longo prazo, em larga escala? Meg Weathley é foda…

Eu nem quero invadir o território dos historiadores ou o repertório do Lulu Santos, bastaria uma breve retrospectiva de como caminha a humanidade para reconhecer nosso franco declínio, a passos de formiga e sem vontade. Quantas cenas de morte, violência , explosões, mares contaminados, florestas desmatadas, assassinatos e estupros são necessárias para reconhecermos que vamos mal, muito mal? Mas um de nossos lemas mais arraigados , “a esperança é a última que morre”, resiste a esta constatação. Principalmente em tempos de rótulos sustentáveis, do retorno do politica e organicamente correto e dos incontáveis adeptos da Lei da Atração, queremos acreditar que as coisas vão melhorar, e que está em nosso poder transformar o mundo. Estivemos transformando o mundo desde a revolução industrial, e a que ponto chegamos…

desigualdade

 

Que coisas? O que significa melhorar? Que mundo? Olhando para o que você realiza, no seu cotidiano, o quanto você tem conseguido permanecer presente quando “as coisas” não estão “melhorando”? Qual sua compreensão das pessoas e dos relacionamentos, dos processos? Você consegue enxergar além das suas necessidades não atendidas, ou apenas sente a frustração de não vê-las realizadas? Você almeja causar impacto em 7 bilhões de habitantes , mas nem conhece seu vizinho. Sonha em morar numa ecovilla, mas (ou porquê) não suporta sua sogra. Defende reformas profundas necessárias na Educação, mas ironiza as perguntas de seus alunos. E assim perseguimos,  furiosamente,  metas que colocamos fora de nosso alcance. De incoerência em incoerência, vamos procrastinando a responsabilidade pelas mudanças que são possíveis. Sabe de uma coisa? Propor-se a salvar “o mundo” é o álibi perfeito pra não fazer nada.

Eu aprendi, durante o curso, que a minha visão é muito limitada e ao mesmo tempo, onipotente. Na medida em que me dedico com toda intensidade a uma causa, relacionamento ou projeto, cultivo a esperança de que aquilo tem muita relevância e poder.  Como já foi escrito (mas fingimos que não lemos),  expectativas não se cumprem. E isso nos enfraquece. Se eu planejo ações querendo impactar milhares de pessoas, o que acontece comigo quando milhares não compreendem meu chamado? Pior, e se eles compreendem a proposta, apenas decidem não implementá-la? E se compreendem, decidem implementá-la mas não estão dispostos a pagar por ela? Gênios rejeitados nos sentimos, e entramos numa roda viva de vitimização e julgamento que, eventualmente,  mina nossa resiliência e capacidade de mobilização.

Eu não estou invalidando o esforço de ninguém. Sei que muitas pessoas se dedicam com seriedade, às vezes a vida toda engajadas em missões importantes, e sem elas estaríamos ainda mais perdidos. Mas estou alertando para o fato de que para cada esperança cultivada, há um medo de que ela não se cumpra, uma porta de entrada para o desapontamento. A questão é continuarmos presentes e atentos, criativos, mas de olhos abertos, disponíveis para agir no mundo tal como ele é, não pelo que gostaríamos que fosse (O mesmo raciocínio se aplica pra vc , que está aí imaginando que ele/ela vai mudar por causa do seu amor, viu? Ama a criatura pelo que ela é, não pelo que vc gostaria que ela fosse ou pelo que vc pretende que ela possa vir a ser!).

Prestenção: “abandone qualquer esperança” é forte. Mas entregue-se a todas as possibilidades também é.

Desta perspectiva, podemos abrir mão de convencer os outros sobre nossas verdades, libertá-los e a nós mesmos do fardo de nosso altruísmo. Simplesmente continuar a fazer o que sentimos ser necessário e bom, independente dos resultados, talvez nos eleve a um outro nível de comprometimento e autenticidade possível. Um nível de experimentação direta dos seres humanos como somos, maravilhosos e terríveis. Neste patamar de realidade, nossa observação se torna mais aguçada, nosso coração menos volúvel, e nossa ação mais precisa.

Caso você seja uma das pessoas que têm dedicado inteligência, energia, tempo e esperança para mudar o mundo, e esteja se sentido enfraquecido por que “as coisas não estão melhorando”, deixa eu te dizer: “Sim, não estão melhores, e só vão piorar”. Mas isso não tem que te paralisar, é só uma questão de conciliar o Dom Quixote que mora dentro de você com o síndico do prédio que insiste na sua presença na reunião de condomínio, na qual sua opinião sobre a coleta seletiva de lixo, de fato, faz falta.

Compartilho algo que, recentemente, escrevi para um amigo muito decepcionado por não ter recebido o apoio que ele esperava:

(… o intervalo entre o que oferecemos e o que as pessoas compreendem…) é um processo. Não tem a ver com tempo, nem com quantidade. Cada um é um, nessa transição. E em cada um de nós os paradigmas vão se expandindo, se transformando aos poucos. Estamos lidando com uma programação de competição, escassez e realidade predatória que está impressa há séculos. É preciso continuar a fazer o que acreditamos independente das reações, mas ao mesmo tempo celebrando cada reação. Cada ajuda, cada idéia, cada crítica, cada sugestão, e também cada silêncio, cada omissão, cada ausência de retorno nos ensina. Todo indivíduo contém em si um universo, é preciso reconhecer que não sabemos o alcance e reverberação das nossas palavras e ações.

Pode ser que você não viva pra ver o resultado das tuas reflexões, pode ser que você não presencie o mundo colaborativo que almeja. Mas você é capaz de perseverar, mesmo assim? Ou fazemos o que fazemos para que seja visto, apreciado e vivido quando queremos e como queremos? Entrega teu trabalho, tua alma e tua força, se for preciso sangre, mas sangre de boa vontade, não porque os outros vão te compreender, mas porque é a coisa certa a fazer.

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