Inspiro, deliciada, cada vez que me convidam para conversar. Hoje tive, mais uma vez, a alegria de ser convidada para o que venho chamando de “cafés existenciais”, este momento simples, despretensioso, em que alguém, por uma razão que sempre me escapa, convida-me ao prazer de compartilhar comigo suas dúvidas, inquietações, curiosidades e insights a respeito da vida.

Eu gosto muito, muito mesmo, porque sempre revela mais um espaço no qual flutua, impávida, a minha ignorância. Como eu poderia saber sobre a pessoa algo que ela mesma não sabe sobre si, eu, que cruzo oceanos para participar de algo indescritível como um curso chamado “Guerreiros pelo Espírito Humano”?

Seja como for, a honra deste espaço tem se apresentado com frequência, para que eu aprenda a sair do meu habitual lugar de sabe-tudo, colocar-me alerta sobre minha vaidade. Realmente, tem ficado cada vez mais claro que especular, ainda que com convicção, sobre existirmos a que será que se destina, não é mais que um exercício de filosofar com nossa própria sombra.

Por estes dias circulava o vídeo de um cãozinho que brinca de morder a própria pata, e é mais ou menos essa imagem que me vem quando fingimos não saber o que é inerente à nossa própria natureza. Para os mais sensíveis, remeto-me a Fernando Pessoa (ele mesmo, se não me engano, embora eu sempre tenha preferido Alberto Caeiro), delirante, pois  “o poeta é um fingidor; finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.

Cão ou poeta, penso que a maioria de nós está confundido nesta dinâmica maluca porque a busca por uma verdade que já existe é mais uma das invenções da alma para fugir ao tédio de tudo saber.  Diante da percepção da complexidade dos fenômenos, a busca por respostas lineares vinha cansando a galera. Há coisa mais amaldiçoada, ultimamente, que o mau e velho “pensamento cartesiano”? Deus nos livre do pensamento cartesiano. O negócio agora é ser holístico, integral, transversal, longitudinal, globalizado, sistêmico, conectado e integrado.

Daí a pessoa se mete a tocar iniciativas “para gerar impacto”  deeeeeeste tamanho, colocando animais minerais e vegetais no mesmo balaio, e depois fica com uma frustração daqueeeeeele tamanho, porque percebe que, afinal, tudo saiu do seu controle. Gera um belo do impacto no ego, isso sim!

Eis a pobremática:  se aquelas forças que influenciam a nossa mínima coerência e qualidade de vida (bem/mal, certo/ errado, masculino /feminino, mente/ espírito, pessoal/profissional, individual/coletivo) que você aprendeu a separar, por vício do pensamento cartesiano – sim, vamos por a culpa nele, de novo -não estão integradas dentro de você, criatura, não há abordagem multidisciplinar que te faça integrar o que está fora! Não é necessário forçar os outros a se conectarem, se integrarem. Eu é que preciso integrar o que está fragmentado em mim. Como tudo está, de fato, conectado, aquilo que eu conseguir curar e  integrar em mim irá, eventualmente, curar e integrar a minha relação com os outros. Tendeu?

“ E comé que integra, Darlene?”

“Sei lá eu”.

Olha só: eu não discordo que a verdadeira natureza dos fenômenos seja  holística, integral, transversal, longitudinal, globalizada, sistêmica, conectada e integrada. Mas justamente porque é, de fato, assim, não precisamos fazer com que seja assim. Sabe como? A pata não tá separada do cachorro, baby, ele é que finge que está pra poder brincar com ela. Por mais uma das razões que me escapam, os seres humanos nos esquecemos da verdadeira natureza dos fenômenos para depois nos divertirmos ao nos lembrarmos dela.

Outros exemplos menos dialéticos e mais prosaicos: quando achamos dinheiro que havíamos, inconscientemente, esquecido no bolso de alguma calça, quando reencontramos brinquedos “perdidos” embaixo da cama, quando enfiamos a mão no vão do sofá e, maravilha, lá está aquele botão do casaco preferido! Há coisas que já sabemos onde estão, de onde vieram, para onde vão, mas a nossa psiquê brinca de esconde-esconde com elas.

“Por quê, Darlene?”

“Vide resposta anterior”.

Não sei, meu amor, porquê que a gente é assim, e não sei como é que faz pra resolver a equação. Mas sei que pode ser bacana não se consumir nessa dúvida. Você não vai se dissipar, se não conseguir se explicar.

A posteriori, que me perdoem os intelectuais da nova era (os de botequim e os de academia), o erro de Descartes não estava em cogitar para ergo ser. Aliás, o erro de Descartes não estava em lugar algum. Na verdade, se Descartes estava certo ou errado sobre a natureza dos fenômenos não faz a menor diferença, do ponto de vista dos fenômenos propriamente ditos. A chuva não precisa que a expliquemos, para cair, e não precisamos umidificar os campos para que ela caia “melhor”, ao tocar o chão. Assim como agora que concordamos que os fenômenos são (sempre foram, sempre serão) sistêmicos, não precisamos nos preocupar em propor diretrizes, metodologias e estruturas para torná-los, por força de nosso brilhantismo intelectual, sistêmicos.

Mas a qualidade da nossa presença, esta sim, faz diferença. É a nossa presença que pode ser, cada vez mais, íntegra. Se pudermos apenas nos lembrar que cada um contém em si um universo, talvez seja possível relacionar-se por inteiro, usufruir de uma co-existência serena, degustando momento a momento o convívio com cada pessoa que se apresenta à sua frente, olhá-la nos olhos, abrir as janelas da alma com compaixão, para reconhecer que ninguém precisa ser mudado, melhorado, consertado. Todos queremos, ao fim e ao cabo, ser compreendidos, amados e aceitos, como somos.

Assim que relaxamos, descemos do salto e nos permitimos viver a beleza de cada encontro, percebemos que o mundo sobrevive à nossa vã filosofia. E então podemos, simplesmente, ser. Sem cogitar.

 

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